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“Não há vantagem evolutiva na depressão”, opina médico
04/02/2012, 6:34 AM
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Em alguns setores acadêmicos, só se fala em analisar o comportamento humano por meio da biologia evolutiva. Os pesquisadores querem descobrir que vantagens evolutivas estariam escondidas em nossas ações, ou mesmo em nossas patologias.

É a vez de a depressão ser examinada em detalhes. Alguns psicólogos evolucionistas acreditam que essa doença dolorosa e incapacitante pode esconder algo de positivo. Mas, como eu, a maioria dos profissionais que tratam pacientes discorda com veemência.

Tome como exemplo uma paciente que analisei há algum tempo, uma mulher de trinta anos de idade cujo marido a havia traído e abandonado. Durante muitas semanas, ela se tornou abatida e se isolou socialmente. Ela desenvolveu insônia e começou a refletir constantemente sobre o que havia feito de errado.

Um psicólogo evolucionista talvez afirmasse que a resposta de minha paciente tinha alguma lógica. Afinal de contas, quando sua rotina normal foi quebrada, ela procurou se isolar, tentou entender a razão para seu abandono e se planejar para o futuro. Talvez você perceba alguma vantagem evolutiva na habilidade que as pessoas depressivas têm de fixar sua atenção de forma rígida e obsessiva em um único problema, desligando-se de tudo e de todos a seu redor.

Alguns estudos parecem dar apoio a essa perspectiva. Paul W. Andrews, psicólogo da Virginia Commonwealth University, relata que sujeitos normais ficam tristes quando tentam resolver um teste de reconhecimento de padrão espacial mais complicado, o que sugere que alguma característica da tristeza possa melhorar a capacidade analítica dos sujeitos.

Com uma abordagem similar, Joseph P. Forgas, psicólogo da Universidade de New South Wales, na Austrália, descobriu que sujeitos tristes obtiveram mais sucesso no reconhecimento de mentiras do que sujeitos felizes submetidos ao mesmo teste. Nele, os sujeitos eram expostos a vídeos desenvolvidos para induzir sentimentos de felicidade ou tristeza e, em seguida, Forgas exibia uma série de entrevistas, algumas verdadeiras e outras mentirosas, nas quais os entrevistados negavam ter cometido um roubo. Os sujeitos que foram expostos ao vídeo triste eram mais céticos e detectavam com maior precisão os discursos mentirosos; já os sujeitos que foram expostos ao vídeo positivo confiavam com muito mais facilidade nos entrevistados.

Resultados como esses podem sugerir alguns benefícios da tristeza, mas, com o tempo, eles foram generalizados para pacientes que sofriam de depressão profunda. Por exemplo, Andrews e o Dr. J. Anderson Thomson Jr., psiquiatra da Universidade da Virgínia, propuseram que a reflexão entre os depressivos seria uma estratégia de adaptação para resolver um problema doloroso. Os psicólogos clínicos, por outro lado, continuam a afirmar que o aspecto sombrio dos depressivos é uma evidência de que seus processos cognitivos estão distorcidos e funcionando de forma errônea. Esses processos devem ser corrigidos, não incentivados.

Há evidências concretas de estudos neuropsicológicos e de imagem cerebral que demonstram que a depressão clínica está ligada a vários tipos de deficiências da memória em todas as faixas etárias e em todos os graus de depressão. Desafiar e modificar os pensamentos disfuncionais da depressão é o objetivo da terapia cognitivo-comportamental, uma das formas mais populares e empiricamente comprovadas de psicoterapia.

Mas quem está certo sobre a depressão, os psicólogos evolucionistas ou os psicólogos clínicos?

Para começar, os sujeitos dos estudos citados eram controles saudáveis, cujo estado de espírito havia sido manipulados para que ficassem temporariamente tristes. Eles não são realmente depressivos do ponto de vista clínico, condição que pode durar por meses ou até anos.

Forgas afirmou por e-mail: “Nunca trabalhei com depressivos e não acredito que os experimentos que realizamos enquanto procurávamos uma relação entre os efeitos do estado de espírito sobre os processos cognitivos em populações normais que vivenciam diferenças de humor corriqueiras possam ser generalizados para os processos cognitivos de pessoas com depressão”.

Sob olhares mais atentos, o caso dos benefícios evolutivos da depressão apresenta grandes problemas. O fato é que o pensamento reflexivo dos deprimidos não é particularmente eficiente na resolução de problemas. Um de meus pacientes disse certa vez: “Eu pensava sempre da mesma maneira e era incapaz de decidir o que fazer. Essa não é uma forma muito criativa de pensar”.

Além disso, a depressão pode surgir sem a influência de qualquer fator psicossocial, o que torna difícil o argumento de que a depressão seria a resposta a uma situação difícil ou a um problema. O Dr. David J. Kupfer, psiquiatra da Universidade de Pittsburgh, descobriu que o primeiro episódio de depressão é quase sempre precedido por um grande fator estressante, mas os episódios recorrentes podem ser desencadeados por pequenos fatores, ou mesmo sem causa aparente.

Caso a depressão aumentasse a capacidade de solucionar problemas, ela nunca iria se transformar em uma condição crônica ou autônoma, mas é isso o que ocorre em praticamente metade dos pacientes.

De acordo com a Organização Mundial da Saúde, a depressão é a principal causa de afastamento do trabalho e a quarta doença mais difundida no mundo, devendo alcançar a segunda posição em 2020. Há evidências claras de que ela é um fator de risco para problemas no coração e diversos estudos demonstram que a depressão prolongada está associada a danos seletivos e permanentes no hipocampo, a região do cérebro responsável pela memória e pelo aprendizado.

Se adicionarmos ainda o fato de que de 2 a 12 por cento dos deprimidos cometem suicídio, as “vantagens” da depressão deixam de parecer assim tão boas.

Mas, por que ainda existe esta noção de que a depressão traz benefícios e autoconhecimento?

Recentemente, um paciente me ajudou a compreender essa questão. Ele era um jovem educado e articulado, infeliz porque o mundo era um lugar horrível, segundo dizia. Já que ele tinha diversos outros sintomas da depressão _ insônia, fadiga, pouca libido e baixa autoestima _ eu confirmei seu diagnóstico de depressão clínica e lhe disse que sua visão de mundo provavelmente era um resultado da depressão, não sua causa.

Ele zombou, mas estava disposto a tentar um tratamento cognitivo-comportamental associado ao uso de antidepressivos, caso isso o fizesse se sentir melhor. Meses depois, quando já estava recuperado, eu lhe perguntei mais uma vez sobre sua visão de mundo.

Para ele, o mundo continuava terrível, mas ele se sentia melhor. Ainda assim, refletiu melancolicamente que sua alegria recém-descoberta não representava o seu verdadeiro eu, que, segundo ele, seria ensimesmado e criativo.

Essa é a razão pela qual a depressão é cada vez mais romantizada. De acordo com esse pensamento, o que é natural, é bom. Se nós fomos projetados para sofrer de depressão como resposta às doenças da vida, deve haver uma boa razão para isso e nós devemos permitir seu curso natural e doloroso.

Mas, ao contrário da tristeza comum, o curso natural da depressão pode ser devastador e até letal. Mesmo que a tristeza possa ser útil, a depressão clínica assinala uma falha na adaptação à perda ou a situações estressantes, uma vez que diminui a habilidade de resolver os dilemas que a causaram.

Mesmo que a depressão seja “natural” e evolua a partir de um estado emocional que, em algum momento, foi vantajoso, isso não significa que ela seja uma doença mais desejável do que outras. A natureza nos oferece infecções, câncer e problemas do coração, e nós fazemos o possível para evitar esses problemas e tratá-los da melhor forma. Não podemos agir de outra forma com a depressão.

* Richard A. Friedman é médico

Fonte: UOL


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